25.5.16

Mangas arregaçadas

Pond, “Midnight Mass” (Live KEXP), in https://www.youtube.com/watch?v=Axx9MIh4fNM
De mangas arregaçadas, que o tempo poltrão não se recomenda. Pois a inércia é uma história fatal, um estorvo para os incómodos em fruição pelo medo do que seja. Por mais que seja sedutor cruzar os braços e deixar que as coisas tomem o seu curso, sendo delas passageiro sem vontade. Não é modo de ser que apalavre encómios. É um luto sem sentido, uma contumácia de si mesmo.
Por isso, as mangas arregaçadas despedaçam a servidão ditada por um diadema tentacular. Os olhos demandam várias partidas e em todas elas há frutos pendidos à espera de serem colhidos, árvores que precisam de poda heurística, caminhos obstruídos que carecem de força braçal para serem outra vez caminhos em sentido pleno. Ou outra empreitada qualquer, daquelas que estejam pendentes na hipoteca do tempo procrastinado, ou daquelas que se soerguem nos dedos de um momento. As mangas arregaçadas em homenagem ao sentido volitivo do ser, ao irredutível namoro pela obra que se pensa e se vai fazendo, ao conhecimento insaciável, à imperativa sagração do amor, a tudo que seja credor de serventia.
A janela do tempo desarma as peias que a mantém encerrada numa agonia dilacerante. As mangas arregaçadas ajudam a polir a janela corroída pela fuligem. Ajudam a apertar os parafusos em falta, sem os quais a janela não consegue ganhar préstimo. Por demorada que seja a função, sem arreliar a paciência que resulta metódica. As mangas arregaçam-se para fazer a obra nascer. Para, depois da obra nascida, contemplar a claridade que invade o quarto escancarado pelas janelas abertas. Para beber o mundo lá fora e dar um lote de si mesmo a um mundo ávido de conhecimento.
Sem as mangas arregaçadas, somos penhorados pela letargia. Somos posse de uma hibernação consumidora da alma. Com as mangas arregaçadas devolve-se a essência do ser, que se embebe na grandeza que há na alma. Com as mangas arregaçadas, o mundo lá fora transfigura-se num mundão. E somos capazes de presumir que temos uma estatura do tamanho do mundão. Os braços à mostra, operários incansáveis em preparos para absorver cada partícula do ar, cada pixel da paisagem, cada aroma das palavras, cada sensação intraduzível em palavras fermentadas na sublimidade dos sentimentos que importam.

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