5.4.16

O tamanho do medo

Chet Faker, “Gold”, in https://www.youtube.com/watch?v=hi4pzKvuEQM
Oxalá pudesse encorajar o cinismo a ficar dentro da toca quando aparecem personagens a alardear bravura. Oxalá não usasse do cinismo quando digo que tenho inveja desses corajosos que, se preciso for, deitam o peito às balas porque se acham feitos de uma genética matéria onde a bravura prolifera. Não sei se são apenas néscios, ou se tratam da pessoa própria com inconsequência.
Não acredito que haja quem não tenha um sótão cheios de medos. De medos que variam consoante as aversões que tomam conta das diferentes pessoas. A menos que estejamos diante de loucos em estado puro, ou de personagens tomadas por um qualquer atraso mental, ou de mitómanos que se têm em muito elevada consideração. Temos medos. Medos diferentes. Medos mais, medos menos.
Eu não posso ver cobras por perto. Tenho pesadelos com aviões em queda, sem nunca ser seu passageiro – e, talvez por este detalhe do sonho recorrente, não tenho medo de andar de avião. Tenho medo de, sem saber como, aparecer nu no meio de uma rua movimentada da cidade, em pleno dia. Tenho medo que o chão fuja debaixo dos pés, outra vez em conformidade com pesadelos recorrentes. Tenho medo de espaços acanhados e escuros; não era capaz de entrar numa gruta apertada e sem luz, por mais que me garantissem que o mapa das vielas da gruta estava devidamente assimilado. Tenho medo de gente tresloucada a meio de um acesso de loucura – quem sabe se não se cai no redil das vítimas da demência instantânea que termina num acesso de violência. Tenho medo de gente desmesuradamente ambiciosa, gente que não trava ímpetos soezes quando precisa de atropelar o próximo para subir na hierarquia. Tenho medo que nos organizemos, como associação social e política, em reação ao medo covardemente espalhado por apóstolos do terror – e tenho medo desses endemoninhados que não cultivam a majestade da vida. E tenho medo dos valentes que ostentam uma coragem demencial, pois nunca se sabe se são apenas como os cães que ladram sem terem o topete de morder, ou se podem ser apoderados por uma cegueira momentânea e disparatar ao acaso.
Tenho medos, uns racionais, outros fundeados no poder de sugestão de pesadelos que se reiteram. E não tenho medo de abrir o peito para que fiquem esses medos à mostra. Talvez seja uma maneira diferente de mostrar, sem exibir, coragem.

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