15.3.16

Submersão

Kiasmos, “Gaunt”, in https://www.youtube.com/watch?v=8qnQCt7WEEE
Uma raridade. Os olhos marejados, expostos à maresia. Naquele lugar, onde o mar era longínquo e, todavia, a maresia. Ou o feixe de luz intensa que albergava os contornos da planície, embora fazendo noite e estando perdido entre alcantiladas montanhas. O suor derramado era o caudal onde ia começar a submersão. A hibernação imperativa, quando os cantos do mundo deixam à mostra arestas pontiagudas.
Em submersão, não era capataz da vontade. Sentidos açambarcados pelo lenitivo da vontade, que era concurso dos sonhos empossados. Alguns evocavam o tempo fruído. Outros eram tangíveis ao tempo atual, parecendo a sua reprodução com um atraso de somenos importância. Outros atiravam o corpo para um palco turvo onde só havia trevas e vultos. Onde as linhas delimitativas dos corpos eram trémulas, parecendo decair em sombras voláteis a cada tentativa de aproximação. Falava-se um idioma desconhecido. E, todavia, compreendia os diálogos. Parecia discernir as linhas fluídas escondidas atrás das trevas. As águas frias da submersão não deixavam anestesiar os sentidos. Estavam de atalaia, por mais que estivesse apoderado do sono conducente aos sonhos bizarros.
A meio da submersão, um aperto na jugular devido a um sobressalto caucionado pelo sonho. Um interlúdio de lucidez, só para tirar as medidas às circunstâncias. Depressa voltou aos campos do onírico. Depressa o corpo foi atirado para as convulsões de outro sonho extravagante. Era como se fosse ator a pisar múltiplos palcos, palcos paralelos com portas que consentiam a comunicação entre eles. Em cada palco, luzes diferentes, paredes de cores diferentes, a configuração do palco desenhada por bissetrizes diferentes. Alguns, com gente. Num palco ele era o único habitante, convidado a um monólogo em que podia dizer o que o contentasse, sem o estigma dos outros com quem não contracenava.
Os palcos contavam diferentes circunstâncias. As ondas alteradas de um mar em modo tempestuoso, atirando o mar contra os paredões. Uma corrida de motas conduzidas por adolescentes estroinas. Uma ambulância a ir recolher feridos numa fábrica. A luta de classes – sempre a luta de classes, presente até para quem a nega (nem que seja mercê desse efeito). Um duplo arco-íris a deixar as pessoas extasiadas, algumas tirando fotografias à raridade. E, no fim do fio condutor dos sonhos, o resgate do estado de submersão. Os pés de novo em adesão ao chão quente. A admiração dos contrafortes da luz diametral, a cortar em madeixas o néon filtrado pela janela. E o mundo inteiro lá fora. Em reversão dos sonhos, talvez.

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