25.2.16

O espelho sem vidro

Savages, “Adore”, in https://www.youtube.com/watch?v=Y7ZpPsaMNMM
Podia ser só um pesadelo. Olhava de frente e o espelho não correspondia com uma imagem do rosto. O espelho não tinha vidro, mas quem o via de fora era levado a pensar que o vidro estava no seu lugar. Constava que as pessoas se demoravam em frente ao espelho. Mesmo sabendo que por ele não alcançavam imagem devolvida, à falta do vidro que seria a caução do espelho. Parecia que as pessoas persistiam numa anestesia coletiva.
Um dia, um forasteiro ficou perplexo ao notar que o espelho não dava notícias do seu rosto. Sendo testemunha de pessoas tomadas pelo enlevo enquanto esperavam à frente do espelho, quis perguntar o que as levava a parar à frente de um espelho que, por falta de vidro, não tinha serventia. A primeira pessoa, um ancião arqueado sobre a bengala, não respondeu. Talvez fosse surdo. A segunda, uma mulher jovem e ruiva, ficou impassível, como se ninguém estivesse a dirigir uma pergunta. A terceira, um senhor de meia-idade todo apessoado, fingiu que tinha de atender o telemóvel. À quarta pessoa, obteve um esclarecimento:
- Quando este espelho foi posto na praça, já não tinha vidro.
- Diga-me: que função tem um espelho desprovido de vidro? As pessoas não olham para um espelho para se verem reproduzidas nele?
- Isso é se as convenções forem hasteadas. Nesta cidade, fomos educados a reservar uma parte do tempo para fugir às convenções. Fazemos isso todos os dias. Um espelho sem vidro é a antítese das convenções.
- Fazem de conta que vêm qualquer coisa quando estacionam à frente do espelho?
- É como nas artes: vemos o que queremos que a imaginação desenhe. Este espelho é um convite a sair do eu, a soltar as amarras que prendem aos usos.
- Todavia, não notei que as pessoas fechassem os olhos quando estão de frente para o espelho.
- É porque está hipotecado a uma convenção: presume que os rudimentos da imaginação exigem que os olhos se fechem, como se fosse condição para a imaginação levantar voo e aportar em lugares longínquos. Ninguém fecha os olhos à frente do espelho. Não é preciso. As amarras da imaginação podem ser franqueadas sem erguer uma cortina sobre o olhar.
- Se as pessoas estão habituadas a este exercício, por mais que me diga que desencrava os grilhos das convenções, ele acaba por ser um costume.
- Mas é um costume que se insurge contra as convenções. Note bem: nós temos as nossas convenções. Por mais irreverente que alguém seja, admite um módico de usos. Servem para emprestar cimento à forma como nos relacionamos. Só que há um momento diário em que extravasamos das convenções. À frente do espelho sem vidro. Resgatamos fragmentos da autonomia.
- Portanto, funciona como uma libertação?
- Sobretudo, de libertação do eu em que habitamos.
- Têm vocação para alter egos?
- A praça onde está o espelho sem vidro é a praça Fernando Pessoa. Nas suas extremidades, encontra estátuas representando os heterónimos.
- Não leve a mal a minha derradeira pergunta: não padecem de esquizofrenia?
- Não. Somos maiores do que o eu em que habitamos. Por isso não conseguimos discernir rostos à frente do espelho. É também por isso que o espelho foi despojado do vidro. Se calhar percebe por que temos tão pouco crime e quase não há suicídios.

Sem comentários: