23.12.13

The best is yet to come

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Conversa afiada. Parecia que ninguém passava por eles. E, no entanto, era um entardecer de azáfama, com o fim de semana a morder no final da sexta-feira e as pessoas a quererem a dissolução do bulício rotineiro em ócio. Os pés meteram-se pelas avenidas largas que, mesmo sendo largas, estavam apinhadas. Enfeites natalícios não escureciam a conversa afiada. Nem as mãos nos bolsos, que o frio trazia os pedintes a tiritar e os cachecóis abundantes eram prova saliente.
- O porvir trará a recompensa maior. Há de vir um tempo, por fugaz que seja, com a gratificação sublime.
- E o que te embala em tão franco otimismo?
- Não sei dizê-lo com propriedade. É uma intuição. Um pulsar interior que demove toda a obscuridade na fermentação do tempo presente.
- Mas não achas que isso é uma contradição?
- O que queres dizer?
- Que tamanho desassombro com que esperas pela nitidez do tempo futuro, sem achares rudimentos palpáveis para aí transitar, é um desespero.
- Sem bem entendo, insinuas que não há por que perseverar, que os tempos sombrios se adensam com o bater das horas...
- Exato.
- ...e que me abraço a uma deriva suicidária por mergulhar na negação do que aos olhos é mostrado.
- Diria que um acesso de espiritualidade se apoderou de ti. Não é crítica, nota bem. Eu seria incapaz de por aí arremeter. Respeito a tua coragem.
- É genuíno. Logo eu, que não alinho em esoterismos e teorias abstrusas, sinto em mim este pulsar irreprimível. Faz-me acordar à espera que o apogeu não demore.
- E o que esperas que aconteça no apogeu?
- Deixarei o tempo fluir em seu vagar. O que houver de acontecer tomará seu lugar em medida certa.
- Não temes que nesse instante tudo se consuma na efemeridade do momento? Que seja uma recompensa fugidia e depois venha a curva descendente, só aplacada se teimares na contínua evocação desse instante?
- Sei que o melhor está para vir. Não me resigno ao outrora resplandecente. E não será depois, quando houver um outro outrora mais nítido por celebrar, que vou estar refém da moldura que refaz esses momentos.
- Qual é o propósito, então?
- É deixar que a ponte dos promontórios de onde se bebe a essência da existência se estenda de cada vez que uma proeza a enfeita. O melhor está sempre por vir. O “sempre” faz a diferença. Não é capitulação, como se o acesso a uma proeza fosse sepultura da existência, ou sua ambientação ao tempo pretérito.
Não conseguiu digerir o otimismo militante do amigo. Nessa noite, acossado pela conversa afiada, interrogou o pessimismo em que se consumia. A insónia devolvia, a todo o tempo, a afirmação de embriagada espiritualidade: “o melhor está para vir”. O pior é depois do melhor ter chegado. Mal por mal – clamava o estertor pessimista – que o melhor não tenha seu valimento.

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