26.11.13

O gato vadio

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Corria riscos. De ser atropelado por um carro destravado, a meio de uma correria também destravada de um lado para o outro da rua. De ser apanhado pelos homens do canil, que tinham uma rede com malha apertada e uma manha caçadora que assustava os companheiros. De ser envenenado pela fome, que um gato de rua tem de deitar o dente ao primeiro mantimento que estiver à mão de semear. De ser apanhado por uns galfarros estouvados, e sabe-se lá que malfeitorias estariam dispostos a praticar. De dormir ao relento em dias de invernia cingida, com o frio a espalhar doença pelos pulmões. De lamber as feridas em combate, depois de uma luta com um gato outro pela posse do território reivindicado.
Eram riscos excessivos. A vadiagem trazia este preço atrelado. Mas não era vadio quem queria naquela comunidade onde a convivência gatil era pacífica, interessadamente pacífica. O espaço livre e o alimento que umas velhinhas generosas depositavam sem faltar um dia que fosse adulteravam a natureza da espécie. Aprenderam a serem comunidade. Eram todos como os palhaços feios da companhia circense: ninguém os queria para companhia. Sobrava o fado de serem vadios até deixarem de serem vivalma. Alguns sussurravam o sonho, pastoreado durante o sono, de serem adotados por uma família carente. Eram os mais tresmalhados. Não os entendia. Como podiam trocar o ar livre, a liberdade do espaço aberto, pelo espartilho de um lar?
Ele não queria. Preferia o torniquete dos riscos a ser refém de um lar claustrofóbico. Desdenhava dos pachorrentos da espécie que espreguiçavam à janela dos apartamentos enquanto retesavam o corpo no sol filtrado pelas vidraças. Como podiam esses gatos ser tão poltrões? Como podiam atraiçoar a natureza da espécie a troco de uma cama lavada, alimento sensaborão e sempre igual, ausência de pulgas e vacinas em ordem?
Tinha orgulho na sua vadia condição. Ninguém lhe deitava mão. Ninguém o enclausurava na contristada maneira de passar o tempo sempre igual. Não trocava dez anos de entediante refastelo por um único ano da vida que sabia ser.

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