13.1.11

Bruxos e “mulheres da vida”


In http://comunidade.sol.pt/photos/pscgf/images/852568/original.aspx
Li algures que os bruxos romenos prometeram cruéis maus olhados porque o governo aumentou os impostos que eles pagam. Mas quem gosta de suportar impostos mais caros? Ontem, ao pagar a bateria do automóvel que substituiu a que vinha de origem e chegou ao fim dos seus dias, o funcionário do concessionário olhou para o papel e doeu-se por mim (uma simpatia inexcedível). Ao mesmo tempo que acenava com a cabeça, lamentou: “vinte e cinco euros só de IVA. Isto é um roubo!
Tenho pena de não possuir os dotes premonitórios dos bruxos romenos para anunciar, a quem quisesse ouvir, a data do funeral deste funesto governo. Se fosse bruxo (ou, o que é mais importante, se acreditasse em bruxarias e seus cozinheiros), até me seria dado o prazer de descarregar a ira com um mau olhado ao ministro das finanças e ao seu chefe, o mais improvável personagem que alguma vez foi primeiro-ministro (já contando com Santana Lopes). Acontece que nem que fosse bruxo puxava lustro à vingança, pois (julgo) não é característica que resida em mim. Mas lá que este governo inepto merecia um colectivo bruxedo que apressasse o seu decesso, que isso ao menos seja verbalizado. E para o resto da conversa não desaguar na lengalenga habitual (como é fácil, em austeridade necessária, martelar mais na tecla do sacrifício fiscal), vou regressar aos bruxos romenos.
A actividade é, ao que li, próspera na Roménia. Tanto que merece um código só para si, daqueles que identificam as profissões para a aplicação de impostos e de registo contabilístico. Como a austeridade é palavra que estala na boca da gente pelas quatro partidas do mundo, o governo romeno convocou os bruxos profissionais a assumir uma quota-parte na austeridade que por lá aterrou. Os bruxos não gostaram (e repito: quem aceita, sem um esgar de dor, um aumento de impostos?). Vão reunir em conclave, que terá que ser secreto, para de lá sair um gigantesco e poderoso mau olhado que terá efeitos devastadores para o governo local.
Ao ler esta notícia muito idiossincrática, emergiu uma comparação que deitou mão a um cenário imaginado. Supus que finalmente a hipocrisia social tivesse sido derrotada e a mais velha profissão do mundo passasse a ser legal. Em vez de as mulheres (e homens, que também os há; mas vou apenas falar das mulheres) andarem aos caídos em bordeis imundos, ou em condições deploráveis nas ruas e esquinas das cidades, fugindo à polícia que ora fecha os olhos, ora decide punir a actividade porque o agente de serviço acordou mal disposto, tudo seria legal. E as mulheres que se entregam à prostituição passavam a pagavam impostos.
(Eu sei que alguns, mais zelosos com a moral e os bons costumes, dir-se-iam repugnados ao saberem que uma obra pública ou um mero subsídio público eram alimentados por impostos que, entre outras origens, vinham do dote entregue pelas mulheres da vida. É a vida! E só me admira que entre a prolífica criatividade dos engenheiros dos impostos, ainda ninguém tenha tido a coragem de vergar a hipocrisia social, tributando quem exerce a actividade.)
Retomo o cenário imaginado: e se, no meio da voraz austeridade, as meninas e senhoras que vendem o corpo fossem obrigadas a pagar mais impostos e não concordassem com o seu quinhão nos sacrifícios a que somos sujeitos? E se elas reagissem com um mau olhado à sua maneira, como se fosse uma greve de zelo, ousando fechar as portas (eufemisticamente falando, pois) por um período indeterminado? Qual seria o pior mau olhado: o dos bruxos romenos, ou este zarpado pelas revoltadas mulheres da vida?

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