16.9.09

O elogio dos candidatos

Ando pelas ruas da cidade e vejo como a campanha eleitoral emprestou muita poluição visual à paisagem urbana. Nada que seja desconhecido em vésperas de eleições. Os tempos que são sempre mais modernos é que trazem algum requinte à exposição dos cartazes. Já não são feitos em papel e colados nas paredes – que essa modalidade é deixada para a divulgação de concertos, peças de teatro, bailados e exposições de arte. Agora os candidatos mostram as suas caras e os slogans bombásticos em cartazes amovíveis que se prendem a postes ou estão afixados em painéis criados para o efeito. 

Ando pelas ruas da cidade e noto a profusão de rostos de candidatos. Ainda por cima, em ano de bebedeira eleitoral (três eleições no espaço de quatro meses, o que não tem precedentes na história eleitoral), multiplicam-se os outdoors à razão das eleições. São as caras dos líderes partidários que se propõem para chefiar o governo (assim se enganando a populaça, que vai no conto do vigário do timoneiro actual, convencido que está, na sua douta ignorância, que estas eleições servem para escolher o primeiro-ministro). E são os rostos dos candidatos às autarquias. Por cá, é uma enxurrada de caras porque os candidatos a presidentes de junta de freguesia conquistaram direito a uma exuberância de cartazes como nunca se viu.

Ao andar pelas ruas da cidade, quem pode ignorar a poluição visual com as muitas caras dos candidatos que estão por todo o lado? É para que não nos esqueçamos que um dia destes há eleições e que os candidatos existem – sobretudo daqueles partidos mais endinheirados e que podem enxamear as ruas com cartazes dos seus candidatos. E tanto vemos cartazes intactos, com os rostos de certos candidatos de idade avançada que aparecem milagrosamente rejuvenescidos (milagres do Photoshop), como se nota a vandalização de alguns cartazes.

É aqui que quero chegar. Devo elogiar a coragem dos candidatos que dão a cara pelo partido que os leva a eleições. Literalmente, dão a cara. Não deve ser confortável ser candidato e, ao andar pelas ruas da cidade, dar de caras com a sua cara vandalizada. Tenho reparado que não há candidato que escape à felonia da vandalização de cartazes. Às vezes perfuram os olhos; não sei se quem o fez quis mostrar que o candidato tem dificuldades de visão e que, portanto, não é credor do voto –  não vá o eleitorado entregar-se nas mãos de um condutor cego. Outras vezes é a boca que aparece rota; terrível acto de censura dos vândalos de serviço, que assim manifestam a intenção de calar o candidato cujo retrato foi danificado, ou apenas o cansaço auditivo de quem é vítima da poluição sonora expelida pelo candidato que é uma picareta falante. O cúmulo da vandalização de cartazes é quando o rosto, na sua totalidade, foi extirpado ao cartaz; tal como se o candidato não tivesse cara – ou a metáfora perfeita para um homem ou mulher que não é digno(a) da cara que mostra todos os dias, pela manhã, ao espelho. E se assim é, indigno será de se apresentar como candidato ao que quer que seja.

A sério: há um notável acto de coragem dos políticos (profissionais ou que ali estão de empréstimo) que se oferecem como candidatos a eleições. Os seus rostos ganham uma notoriedade trazida pela abundância de outdoors. Não me imagino nessa qualidade. Detestaria saber que um qualquer vândalo tivesse profanado o meu rosto (que até poderia ser um adversário covarde, ou alguém a soldo dele). O pior seria o desconforto da privacidade perdida. Só de imaginar que ao andar pelas ruas da cidade teria cada pessoa com quem me cruzasse a olhar na minha direcção com aquela expressão facial de quem diz "estou-te a conhecer daquele cartaz", é o ânimo para jamais ter pretensões a ser candidato ao que quer que seja. Pois um dos bens maiores é o anonimato.

Outra vez a sério: é preciso ter coragem para se ser candidato a eleições. E desprendimento para não recear a exposição do rosto à curiosidade de todos os olhos que a cada instante se cruzam pelos muitos cartazes que semeiam a poluição visual na paisagem urbana. O maior elogio que se pode fazer aos candidatos é a generosidade de quem abdica da sua privacidade.

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