23.9.05

A utilidade do voto negativo

Os críticos dirão: que legitimidade tem um abstencionista militante para dissertar sobre o voto? Passo por cima da crítica, exercendo o mais legítimo direito de opinião – mantendo a teimosia de me ausentar das mesas de voto, não por preguiça ou esquecimento; por convicção, por método.

Muitas vezes deparo com pessoas que dizem: vou votar no partido A, ou em fulano, só para que o partido B, ou sicrano, não ganhem a eleição. Presumindo que nem o partido A ou o fulano reúnem a simpatia genuína de quem assim procede, estamos no reino do voto negativo. Os eleitores votam não por estarem convencidos da superioridade do programa do partido que escolhem, mas porque não querem que um outro partido continue no poder ou venha a exercê-lo. Os especialistas da ciência política encontraram uma forma deliciosa de retratar esta prática: votar com os pés – como quem diz, através do voto, dar um valente pontapé no rabo do partido ou da personalidade que não queremos ver sentada no cadeirão do poder.

Tenho amigos que nunca votaram PSD e que nas últimas eleições autárquicas premiaram Rui Rio, porque era inaceitável o regresso do recauchutado Gomes à Avenida dos Aliados. Outros que nunca votaram PS fizeram-no nas últimas eleições legislativas: estavam cansados do desastre precoce Santana Lopes e, numa visão pragmática e empresarial, chegaram à conclusão que precisávamos de uma maioria absoluta – nem que fosse do PS (e este “nem que fosse” tem muito significado…). No horizonte perfila-se outro caso de voto negativo: pessoas conhecidas, com uma sensibilidade de esquerda, sentem-se seduzidas a votar em Cavaco Silva só para Soares ser derrotado.

Alguns destes casos de voto negativo tiveram o meu aplauso. Foi reconfortante saber que Gomes não ganhou a câmara municipal do Porto, como será delicioso saborear a (para já) previsível derrota do “pai da democracia” nas próximas presidenciais. Já não fiquei tão convencido com os que votaram PS com o fito de sanear o disparatado Santana Lopes, oferecendo de bandeja ao PS a sua primeira maioria absoluta – tenho para mim que Sócrates é uma versão “civilizada” de Santana, um embrulho diferente para a mesma incompetência. Tirando este caso, os resultados enchem-me de contentamento. Não pela vitória dos que reúnem mais votos, mais pela derrota de quem sai perdedor.

Cada um faz do seu direito de voto o que bem entender. Por isso é que sou abstencionista e me intrigam as posições moralistas dos que se indignam quando digo que me abstenho por uma questão de método. Adiante. Apenas para dizer que compreendo que haja pessoas que votam com os pés: para estas pessoas, mais importante do que a escolha que fazem com a cruz que colocam no boletim de voto, é a pessoa ou o partido que estão a marginalizar através desse voto.

Sou incapaz de optar pelo voto negativo. Há maneiras diferentes de utilizar o voto. Como há princípios que norteiam o comportamento do eleitor quando é chamado a exercer o seu direito. Pela parte que me toca, vejo o voto como uma escolha de primeira água. Há quem vote por exclusão de partes: olham para as opções possíveis e vão excluindo os candidatos de acordo com uma escala de antagonismo, até chegarem àquele que é o “mal menor”. Não consigo depositar o voto no “mal menor”. Se é, por definição, “um mal”, não é merecedor da minha escolha. Nisto do voto sou muito exigente com os candidatos que se oferecem no cardápio das opções. Porque sou exigente comigo mesmo. Nas eleições, como nas mulheres que escolhemos para a vida: não somos arrastões que aceitam tudo o que vem à rede; somos meticulosos, escolhemos quem julgamos ser de primeira água (sei de alguém que há-de ficar orgulhosa com o bizarro elogio que daqui lhe é feito…). Nas eleições, o mesmo comportamento. Para que o arrependimento da escolha não venha ao de cima ao fim de pouco tempo.

Se morasse em Lisboa, não votava em Carmona Rodrigues. Por mais que Carrilho me ponha os cabelos em pé com a arrogância e o pedantismo, misturados com uma oportunista apetência para as revistas cor-de-rosa. Vivendo no Porto, não irei votar em Rui Rio. Apesar de ver em Assis o pior que existe no PS do malfadado sistema que nos cerca, uma figura que exala tiques nazis quando ora de faca nos dentes. Nem Cavaco há-de merecer o meu voto. Apesar de ser grande a tentação, só para desmascarar o embuste soarista. Um voto é uma escolha. Uma escolha exige que opte por alguém com quem me identifico. Quando isso não acontece, prefiro a ausência da mesa de voto.

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