18.5.05

A saga num hospital público

É angustiante quando um filho, com poucos meses de idade, fica doente. Aflitivo, porque os pais são assaltados pela impotência de nada poderem fazer. E revoltante, ao mesmo tempo, porque nos interrogamos do paradeiro da proclamada justiça divina que se ausenta para paragens incertas quando uma criança indefesa se expõe às inclemências da doença.

Como se não bastasse a dor de alma de ver um filho a padecer o sofrimento da doença, tudo piora quando é necessário dar entrada na urgência pediátrica de um hospital público. Ao que consta, os hospitais privados não têm serviço de urgência 24 horas por dia. O que encaminha os condoídos pais para os labirínticos corredores de um hospital público, num teste a essa aberração chamada “serviço nacional de saúde”.

A experiência pessoal com hospitais públicos, apesar de escassa, não deixou saudades. Guardo comigo a imagem de que os hospitais do Estado são coisa para evitar, sempre que for possível. Até porque o contacto com unidades de saúde privadas oferece o contraste da qualidade. Paga-se, e bem, mas o serviço tem outra qualidade, as instalações não são comparáveis, a atenção de que o utente é merecedor recomenda-se. Nos hospitais públicos, é tudo ao contrário.

Quando ontem tentei entrar na urgência de pediatria, poucas horas depois da minha filha ter tido alta pela incompetência de uma médica que confiou em excesso nas suas enviesadas capacidades de diagnóstico, a vigilante de serviço disparou, seca, que a criança só podia ser acompanhada por um dos pais. De certeza que se limita a cumprir ordens de um empedernido burocrata que gere o hospital. Mas não faria mal, a estes “gestores de recursos humanos”, inscrever as criaturas que lidam com o público num curso de aperfeiçoamento profissional. Objectivo: saber lidar com os utentes, afinal as pessoas que com os seus impostos pagam os salários desta gente.

Não sei se será pedir muito mais sensibilidade a estes funcionários, que tentem compreender o aperto que estrangula os pais quando chegam ao limite de ter levar um filho à urgência de um hospital público. Pelo contrário, o tratamento é arrogante, impessoal. Limitam-se a exibir a pouca autoridade em que foram empossados – para eles, o canto do cisne, a noção de que são os guardiães da porta que franqueiam ao sabor do seu livre arbítrio.

Muito se fala dos deveres solidários de homem e mulher na educação de um filho, não como frescura dos tempos modernos mas como corporização da responsabilidade partilhada que é gerar e acompanhar um filho. Vamos aos hospitais e apenas um dos progenitores pode acompanhar a angústia que anda de mão dada com a incerteza do diagnóstico, com as demoras no atendimento, com a antipatia e distanciamento dos funcionários. Um dos pais é obrigado a arcar com todos estes padecimentos. O outro, que fica à porta, limita-se a penar, deambulando a figura da alma solitária que fica na escuridão de não saber o que se passa nos corredores frios do hospital que alberga o seu filho.

Como em tantas vezes acontece, a teoria é um embelezamento retórico que não encontra correspondência na prática. São os hospitais do Estado que negam uma das modernidades do politicamente correcto (que, aliás, não contesto): no momento do aperto, é a mãe que dá a cara (porque as mães se recusam a estar longe do filho). É a discriminação alimentada pelo próprio Estado! Dirão os mais compreensivos com o excelente serviço nacional de saúde: não pode ser de outra forma. A exiguidade de espaço nos hospitais impede o acompanhamento pelo pai e pela mãe. Pois essa é a demonstração de como a incompetência grassa entre os que arquitectos do serviço nacional de saúde. É então, como em tantas outras circunstâncias, que sinto que o dinheiro dos impostos que sou obrigado a pagar é mal empregue. Há receita para o desarranjo: privatizem-se os hospitais públicos, para serem devolvidos aos utentes.

Como se todos os males não bastassem, a saga de um hospital público traz outro inconveniente: um estado de alma sombrio, as trombas que escurecem um dia carregado com as cores matizadas da angústia.

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